domingo, 1 de maio de 2011

EXEMPLOS DE PARÓDIA - Guri de Uruguaiana - The Guritles

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INTERTEXTUALIDADE, PARÁFRASE E PARÓDIA


Antes de começarmos a entender sobre a maneira pela qual se conceituam estes termos, é importante lembrarmos sobre a questão da intertextualidade. A intertextualidade se dá através do diálogo estabelecido entre dois textos. Mas de que forma isso acontece?

Um exemplo bem simples é o título de uma redação, pois o “assunto” a ser discutido intertextualiza com nossas ideias, nosso conhecimento de mundo, ou seja, ninguém escreve ou fala sobre aquilo do qual não conhece ou não ouviu falar.

Podemos tecer um texto intertextualizando uma música, uma pintura, uma reportagem publicada em um jornal, um assunto polêmico que circula na mídia, e muitos outros. Agora começaremos a entender mais sobre a paródia e paráfrase, que também são formas de intertextualização.


A paráfrase origina-se do grego “para-phrasis” (repetição de uma sentença). Assim, parafrasear um texto, significa recriá-lo com outras palavras, porém sua essência, seu conteúdo permanecem inalterados. É dizer com outras palavras o que já foi dito.


Vejamos dois exemplos a seguir:


Texto Original


Minha terra tem palmeiras

Onde canta o sabiá,

As aves que aqui gorjeiam

Não gorjeiam como lá.

(Gonçalves Dias, “Canção do exílio”).


Paráfrase


Meus olhos brasileiros se fecham saudosos

Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.

Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?

Eu tão esquecido de minha terra…

Ai terra que tem palmeiras

Onde canta o sabiá!

(Carlos Drummond de Andrade, “Europa, França e Bahia”)


Este texto de Gonçalves Dias, “Canção do Exílio”, é muito utilizado como exemplo de paráfrase e de paródia, aqui o poeta Carlos Drummond de Andrade retoma o texto primitivo conservando suas ideias, não há mudança do sentido principal do texto que é a saudade da terra natal. Drummond de Andrade faz somente uma recriação daquilo que Gonçalves Dias já havia criado na era romântica.

Já a paródia é um exemplo de recriação baseada em um caráter contestador, às vezes até utilizando-se de uma certa dose de ironia e sarcasmo. É uma forma também de ridicularizar outros textos, há uma ruptura com as ideologias impostas. Ela leva o leitor a uma reflexão crítica de suas verdades incontestadas anteriormente, com esse processo há uma indagação sobre os dogmas estabelecidos e uma busca pela verdade real, concebida através do raciocínio e da crítica. Os programas humorísticos fazem uso contínuo dessa arte, frequentemente os discursos de políticos são abordados de maneira cômica e contestadora, provocando risos e também reflexão a respeito da demagogia praticada pela classe dominante. Com o mesmo texto utilizado anteriormente, teremos, agora, uma paródia.


Para exemplificar temos:


Minha terra tem palmares

onde gorjeia o mar

os passarinhos daqui

não cantam como os de lá.

(Oswald de Andrade, “Canto de regresso à pátria”).


O nome Palmares, escrito com letra minúscula, substitui a palavra palmeiras, há um contexto histórico, social e racial neste texto, Palmares é o quilombo liderado por Zumbi, foi dizimado em 1695, há uma inversão do sentido do texto primitivo que foi substituído pela crítica à escravidão existente no Brasil.


Uma canção


Minha terra não tem palmeiras...

E em vez de um mero sabiá,

Cantam aves invisíveis

Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,

Cada qual com a sua hora

Nos mais diversos instantes...

Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra “onde”?

Terra ingrata, ingrato filho,

Sob os céus da minha terra

Eu canto a Canção do Exílio!

[Mário Quintana]


Outro exemplo de paródia é a propaganda que faz referência à obra prima de Leonardo Da Vinci, Mona Lisa:

"A paródia não é um recurso de criação recente. Já existia na Grécia, em Roma, na Idade Média e, hoje, ela é ainda bastante utilizada. Ela ocorre de textos alheios (intertextualidade) e dos próprios textos de seu autor (intratextualidade), ou ainda como forma de autotextualidade, quando o poeta re-escreve a si mesmo."

  • De acordo com o dicionário de literatura de Brewer (apud SANT’ANNA, 1988, p.12), “paródia significa uma ode que perverte o sentido uma outra ode” (para-ode). Vale lembrar que ode era um poema a ser cantado. A paródia era entendida como uma canção cantada ao lado de outra, um contracanto.
  • A paródia traz vozes distintas e antagônicas. Ela inaugura o novo, o diferente, constrói a evolução de um discurso, de uma linguagem, segundo Affonso Romano de Sant’Anna. Ela descontinuidade e se coloca ao lado da contra-ideologia. É a intertextualidade das diferenças, é deslocamento, deformação, inversão __ a contradição, a divisão, o ruído, a quebra das normas. – daí ser recurso bastante utilizado hoje. É mais do que re-apresentação, é tomada de consciência. Paródia é o gesto inaugural da autoria e da individualidade. É o estranhamento máximo, o desvio maior. Nesse dialogismo marcado pela ambigüidade, a literatura parodística é portadora do sério e do cômico. É um discurso dialógico auto-reflexivo. De um lado, a seriedade e a solenidade; de outro, a jocosidade, o ridículo.
Pode-se dizer que o uso da paródia é uma maneira de subverter padrões.

Affonso R. de Sant'Anna (1998) afirma que, para identificar os textos superpostos em diálogo é necessário repertório, memória cultural e literária. Por isso é importante que, nós educadores, façamos chegar às crianças o conhecimento das narrativas da tradição oral, tais como, os mitos, lendas, contos, pois elas são o verdadeiro material literário em processo de recriação.

O leitor tem papel importante nesse diálogo da intertextualidade. É essencial que leitor esteja atualizado e tenha um bom conhecimento de mundo para que possa fazer esse "link" entre o modelo utilizado no passado e a versão do presente.

"Uma cultura se estabelece pelo equilíbrio entre a automatização e a desautomatização, segundo nos ensina Affonso Romano de Sant’Anna (1988). Pela automatização, há o reforço da linguagem conhecida e, pela desautomatização, há a contestação. Há necessidade de convivência entre esses dois movimentos que se instauram no interior do discurso literário."

PARÓDIA, PARÁFRASE & CIA - (Affonso Romano de Sant'Anna)

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